O clássico “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, cruzou as grades do Presídio Guaranésia/Guaxupé para transformar a realidade de indivíduos privados de liberdade através do “Projeto Vidas em Pauta”, um projeto de reinserção social e cultural no qual os reclusos mergulharam na jornada da família de Fabiano, Baleia e Sinha Vitória, canalizando as suas próprias vivências em pinturas, amigurumis, poesias e depoimentos emocionantes.
O projeto, em parceria com o Núcleo de Trabalho e Produção da Unidade Prisional, com a Escola Estadual Alice Autran Dourado e com a UNIFEG/Guaxupé, contou com a participação de 10 indivíduos privados de liberdade, uniu a educação à arte, bem como permitiu que os participantes encontrassem na escassez do sertão retratada no livro um espelho para as suas próprias trajetórias de isolamento e resiliência.
Após a leitura e debate da obra, os indivíduos privados de liberdade foram desafiados a expressar os seus sentimentos através de diferentes manifestações artísticas. O resultado revelou um talento oculto atrás das muralhas.
As pinturas criadas retratam a seca severa, o céu cinzento e os rostos marcados pela fome, capturando a essência melancólica de Graciliano Ramos com cores fortes e traços expressivos.
Personagens como a cadela Baleia ganharam formas tridimensionais através da técnica de amigurumi (crochê). Os bonecos de fios revelaram uma sensibilidade minuciosa e paciência por parte dos artesãos.
A dureza da vida no livro “Vidas Secas” inspirou a criação de poesias autorais. Os detentos traçaram a árdua trajetória de uma família de retirantes na aridez do sertão em busca de uma vida melhor.
Mais do que produzir arte, os indivíduos privados de liberdade puderam expressar suas vozes através dos seus depoimentos evidenciando o impacto que a leitura do livro causou.
“O capítulo da Baleia fez-me chorar. No abandono daquela cadela, vi a forma como muitas vezes a sociedade olha para nós. Foi o livro mais humano que já li na minha vida”, afirmou E. B., um dos detentos participantes.
Outro recluso, P. S. da S. N., destacou sua comoção com o sofrimento dos retirantes na obra: “O que mais me impressionou foi o silêncio daquela família. Eles quase não falavam porque a dor era demasiado grande. Este projeto deu-nos a oportunidade de quebrar o nosso próprio silêncio através da escrita.”
O Diretor Adjunto do Presídio Guaranésia/Guaxupé, Acácio Donizetti Alcantara de Melo destaca: “Atividades como esta oportunizam a redução da reincidência criminal e promovem a remição de pena pela leitura.”
De acordo com a Pedagoga da Unidade, Leandra Polita: “O projeto revela que a arte e a literatura não são apenas passatempos, mas ferramentas fundamentais para reconstruir a dignidade humana.”
As obras produzidas pelos indivíduos privados de liberdade estão expostas na UNIFEG/Guaxupé de 26 a 30 de outubro de 2026, demonstrando que, mesmo num ambiente de privação, a criatividade e o desejo de mudança permanecem livres.
Fonte: ASCOM















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