A despedida de Marco Regis ao amigo Prof. José Sales de Magalhães Filho

O ADEUS AO CIDADÃO, PROFESSOR E POLÍTICO ZÉ SALES

 

Um nome tradicional, descendente dos fundadores do município de Muzambinho; José Sales de Magalhães Filho. Um nome longo, mas o dono se sentia mais confortável sendo chamado simplesmente de Zé Sales. Era mesmo uma questão de despojamento e de simplicidade. Pessoalmente, posso afirmar que minha amizade com Zé Sales e outros de seus irmãos, o João, o Miguel, o Francisco – por que não dizer Chiquinho – veio de nossos tempos de ginasianos, sem me esquecer da Geralda. Portanto, quando marchamos juntos na vitoriosa campanha eleitoral de 1988, que nos elegeu Prefeito e Vice-Prefeito de Muzambinho, nossa amizade era entre as famílias dele e a minha, onde devo incluir meu irmão Beto, que é o nosso atual e destacado médico muzambinhense, Dr. Carlos Roberto de Almeida Lima. O José Sales, pai, era servidor da Fazenda Pública estadual, chamado de Fiscal de Barreira, hoje um tipo de fiscalização tributária nas divisas de Minas Gerais quase que em extinção; e Dna Brasilina, sua mãe, era uma agradável e hospitaleira dona de casa.

 

Saindo de Muzambinho em 1964, na busca pelo meu destino, morei em Ribeirão Preto, Curitiba e São Paulo, vindo conquistar uma sonhada vaga na Medicina/UFMG, na nossa Capital, a partir de 1967. Foi então que tive a oportunidade de conviver com o mencionado Chiquinho numa república estudantil de BH. Nela, dos dez, a maioria era daqui e de Guaxupé, embora tivéssemos companheiros da Zona da Mata mineira e do Norte de Minas. A partir de então me tornei amigo de um outro irmão deles, o Toninho Magalhães, que era bancário no Centro de BH, no Crédito Real de Minas Gerais, na Rua da Bahia. Mais adiante ele também tornar-se-ia professor. Não poderia ser eu um hipócrita, até mesmo diante de muitos leitores deste texto de homenagem póstuma, se eu omitisse que todos os irmãos de Zé Sales, inclusive ele próprio, eram apelidados de Tarzan, especialmente o Zé Tarzan. Não me peçam explicações, porque nunca questionei a procedência de apelidos, aliás todos sabem que sou avesso ao chamamento de quem quer que seja pela alcunha. Somente posso reconhecer que víamos filmes no Cine S. José ou líamos muitos gibis de histórias em quadrinhos do herói da selva.

 

No período que transcorreu entre meu curso na faculdade e de recém-formado pude estar solidário com esses meus amigos durante os períodos em que seus pais estiveram hospitalizados em Belo Horizonte. Tanto o Sr. José Sales, pai, ou Dna. Brasilina faleceram no Hospital do IPSEMG, recém-construído e bem equipado naquela época e a que tinham direito como beneficiários da Previdência Social do nosso Estado. O referido hospital continua no mesmo lugar ao lado da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, defronte ao Parque Municipal da Capital mineira.

 

Quando Prefeito vim a conhecer outras duas irmãs de Zé Sales, uma delas, Dna. Marina, que era casada com o servidor municipal João Dracena, morador do Brejo Alegre, onde sempre íamos tomar caldo de cana preparado na hora em sua moenda caseira.A outra, Dna. Maria, era moradora do Jardim Altamira, ambas falecidas, assim como outros quatro irmãos. Somente lhe sobrevivem Geralda, Francisco e Fátima, dos numerosos dez irmãos.Num dos seus cursos, Zé Sales conheceu e veio a se casar com a Profa. Josefina Camargo Sales de Magalhães, a Juju. A união civil ocorreu em Socorro-SP, onde moravam os pais dela, sendo Juju uma paulista de Botucatu. O casamento religioso aconteceu na famosa Basílica de Aparecida-SP. O casal teve os filhos Otávio Luciano Camargo Sales de Magalhães, destacado professor e campeão de cargos obtidos em concursos públicos nas mais diversas cidades brasileiras, mais as filhas Fábia Cristina e Paula Marize, ambas advogadas e casadas. Acometido há mais de um ano por um tumor cerebral de difícil tratamento, suportou a enfermidade com serenidade, altivez e resignação, tendo sua mulher, os filhos e os netos sempre ao seu redor como valioso suporte.

 

O profissional da Educação, José Sales, teve ótima base fazendo o ginasial e o curso Clássico no antigo Colégio Estadual de Muzambinho, hoje com a denominação de “Salatiel de Almeida”, em homenagem àquele lambariense/campanhense que o fundou em 1901 e que o batizou de Lyceu Municipal. Sales de Magalhães graduou-se em Letras e em Pedagogia pela antiga FAFIG de Guaxupé. Nela também fez inúmeros outros cursos de especialização, alguns deles com elevada carga horária, além de ter feito pós-graduação em Metodologia do Ensino de Português nas Faculdades Claretianas de Batatais-SP. Inteligente e capacitado, o professor Zé Sales lecionou inglês, francês, latim e Educação Moral e Cívica, em diversas escolas locais e da região, sendo seu forte o ensino da Língua Portuguesa e da Literatura Brasileira. Concursado em dois cargos no ensino estadual, aposentou-se num deles em 1991 e no outro em 2002. Exerceu diversos cargos de direção escolar, tipo Escola Municipal de 2º Grau “Dr. José Januário de Magalhães”, E.E. “Frei Levino”, de Monte Belo, na Escola Superior de Educação Física de Muzambinho, no Curso Mobral deste município, além de Coordenador Municipal do MEC em Muzambinho. Vale ressaltar que foi um dos fundadores tanto da escola municipal de “Comércio”, como da própria Educação Física, hoje federalizada junto ao “campus” Muzambinho do Instituto Federal do Sul de Minas Gerais, tendo sido esta nossa antiga e única faculdade por muitos anos, idealizada pelos professores Willian Peres Lemos e Lia Mara Zaghi.

 

Não bastasse o zelo e o gosto de Zé Sales pela Educação, outra parte do seu tempo sempre foi dedicada aos esportes em geral, principalmente o futebol. Foi persistente na formação de garotos em escolinhas de futebol, mas, também fundou e dirigiu clubes de adultos como o Atlético Muzambinho e os Condores. Na nossa administração municipal, ele ficou com a presidência do Independente FC, time fundado por Luizinho Dentista, que foi profissionalizado por Jota Dias. Nesta condição, pela primeira e única vez na nossa história esportiva, Muzambinho se fez representar na 3ª Divisão da Federação Mineira de Futebol, despertando a paixão do nosso povo que lotava as dependências do Estádio Municipal “Prof. Antonio Milhão” nos jogos em que éramos mandantes.

 

Na Política, também viveu Zé Sales com muita intensidade. Com pouco mais de 30 anos ele se elegeu Vereador à Câmara Municipal de Muzambinho, onde atuou de 1977 a 1988, ocupando a Presidência do Legislativo Municipal por diversas vezes, sendo a última vez no biênio 1983/84. Assim sendo, aparadas as arestas de quem ocupou a vereança por legendas partidárias que deram sustentação ao regime ditatorial, Zé Sales, descontente com os rumos do país, se soma, aliás, ajuda a liderar um novo grupo político fundado em Muzambinho, após a redemocratização do país, sob a sigla do PSB – Partido Socialista Brasileiro. Ao lado dele, e completando os chamados pontos cardeais da nova agremiação, estavam Joaquim Alves “Pampa”, Dr. José Roberto Del Valle Gaspar e eu. O grupo atraiu outros valorosos atores e candidatos a vereança, em número de 33, dentre os quais o médico Dr. Carlos; o policial civil Jorge da Delegacia; o ruralista e líder carismático, João “Branco” Podadeira, estes três eleitos pela chapa pura do PSB, numa composição Legislativa de 11 membros. Os outros dois grupos que concorreram conosco elegeram cada um quatro vereadores. Os demais candidatos nossos foram: Professor Mário Montipó; Luizinho Dentista; Jota Dias “Tista”; João “Pato” Reis; Lázaro Silvino Tavares; Marcinho Casagrande; Joaquim “Espaguetti” de Lima; Dr. Altamiro Barbosa Leite; Jair Vasconcelos;Idalízio Ozéias “Tatixa”; João Lindolfo de Lima; Luiz Baldão; Tiãozinho Cardoso; Servinho Dacioli; Marcelinho Martins; José Maria Lino; Dr. Del Valle; Zuza Nassar; Epaminondas Damazzi (Tito das Calhas); Lázaro Casagrande; Agnaldo “Badi” Magalhães; Altamiro Donizete de Lima; Luís Fernando Monteiro; Garibaldi Rezende; Rubens Frutuoso; Marcio Pioli; Rubens “do Beco” Silva; Cido Bráz; Paulo Sérgio Barbieri; e Vitor Defonso de Lima. Muitos desses companheiros já deixaram este plano de vida. Citá-los nesta homenagem ao Zé Sales é como também homenageá-los, vivos e mortos, pois era o Professor quem gostava de orientá-los em reuniões durante a campanha eleitoral.

 

O espaço e a hora não são propícios para elencarmos nossas realizações administrativas. Certo é que deixamos raízes profundas como o nosso Regime Próprio de Previdência Municipal, criado em 1991 que tem hoje cerca de R$70 milhões aplicados em bancos governamentais de Muzambinho, talvez o maior aplicador, uma das previdências mais saudáveis do Brasil, agora ocupando sede própria na Rua Afonso Pena esquina com Aristides Coimbra, descida para a Santa Casa. O Distrito Industrial, o Cristo Redentor idealizado pelo sr. José Benedito da Silveira, o Hino de Muzambinho, o Conselho Tutelar dos Direitos da Criança e do Adolescente, etc. Mas, fecundo e particular foi a atividade do Professor José Sales como Chefe do Departamento de Educação (evitamos ter cargos de Secretários por não desejarmos grandeza). Na campanha ele escutou pais de crianças da área rural e já no começo das aulas começamos a transportar alunos rurais para continuarem seus estudos na cidade, sem orientação e sem ajuda de governos, da cabeça dele, do povo mais nossa ação para compra de kombis e dois ônibus usados. Fomos pioneiros nesta ação. Teve outra conquista trabalhosa obtida por Zé Sales pois demandou obtermos autorizações do Ministério da Educação e do Conselho Estadual de Educação. Com o auxílio técnico das professoras Helena Lúcia Elias Riboli e Marta Santiago, implantamos um Curso Técnico em Administração de Empresas na Escola de Contabilidade/ “Comércio”. O SENAC também foi conquista nossa, formou técnicos e lhes ajudou conseguirem empregos.

 

Não tem como relacionarmos todos os tipos de homenagens recebidas pelo Professor José Sales de Magalhães Filho nos campos educacional, cultural e esportivo. Medalhas, troféus, placas comemorativas, títulos de paraninfo, moções legislativas e tanto mais. Os minutos que se seguiram ao anúncio da sua morte, ontem, congestionaram as redes sociais, cada um se solidarizando ou se manifestando à sua maneira. Provas de reconhecimento, de gratidão e acima de tudo de amizade. Um grande vazio fica em Muzambinho com a partida para sempre deste homem que deixou suas marcas pela cidade e nas pessoas. Nossas mãos lhe acenam o último adeus, Zé Sales.

 

– Autor : Marco Regis de Almeida Lima é médico, nascido em Guaxupé, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003).

 

– Foto : Condecorado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais em 2001, o professor José Sales aparece entre o Deputado Marco Regis e o seu irmão, Dr. Francisco Sales de Magalhães, junto com a professora da UFMG, Daclé Vilma de Carvalho.

 

Fonte: Via perfil Jota Dias no Facebook / Jornal da Região – Guaxupé/MG

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